Ela trai: vadia. Ele trai:
comedor. E assim definimos os papéis da história mais vista nesta semana, a
saga de Fabíola, a moça que foi fazer a unha no motel.
Não há quem não tenha recebido um
vídeo, talvez dois, ou até três – considerando um mais picante e rasgado na trucagem
- narrando a celeuma dessa moça. Os vídeos
viralizaram em horas e a fofoca correu à boca graúda. Sim, graúda! Porque miúda,
meu bem, era quando esse tipo de estrago ficava restrito às calçadas de rua.
Quando vi o vídeo, confesso ter
sentido um baita alívio em não ser Fabíola conhecida como Juliana. Imagina o
tamanho da paciência em ter que ouvir piadinhas: foi fazer a unha, Juliana? Mas
e se, ao invés de Juliana, Fabiola fosse chamada de João, qual seria a extensão
do humor?
Eu não me lembro de ter recebido,
em qualquer rede social, vídeos de homens em situações semelhantes e creio que
cenas como essas devem pipocar aos montes por aí. Esse tipo de representação
não é replicado nas redes, não com a mesma intensidade, pois qual seria a graça
na exposição da virilidade masculina? Homem que trai é comedor, ué! Por outro lado, a mulher tem a sua reputação
dizimada quando expõe um comportamento sexual ativo. Mulher que trai é biscate,
né? A narrativa do amigo do marido traído, promovido a “videomaker”, ilustra
bem o caso: “Tanta piranha, Leo, sacanagem, Zé! ”
Estamos aprisionados em estereótipos de
gêneros e os tratamos, ainda, de forma desigual. Precisamos construir novas
formas de relacionamentos. A condição da mulher já é, sem trapalhadas, suficientemente
miserável, pois se encontra subjugada aos apetites e paixões da nossa cultura patriarcal,
precisamos piora-la? Precisamos... perguntem à Fabiola.
Tomas Hobbes, em Leviatã, pede ao indivíduo
um exame de sua consciência: “conhece-te a ti mesmo”, pois estamos carregados
de preconceitos e se tomarmos ciência de como somos, encontraremos meios de nos
reconhecermos nos outros, e talvez, compreende-los.
A honra é a qualidade atribuída à alguém, então
deixemos a cagada da Fabíola para os envolvidos: marido, amigo, amigo do amigo,
mulher do amigo...enfim, para os que têm interesse em valorar essa falta de
retidão. Eles já criaram seus próprios demônios, não os alimentemos ainda mais.
