As tragédias que ocorreram nas cidades serranas do Rio de Janeiro, certamente, chocaram-nos. É difícil mensurar qual seria o grau da dor de alguém que perde vários entes de sua família. Diante da dor e da perda, resta-nos buscar ações de ajuda, sermos solidários. O Brasil está mobilizado, cada um do seu jeito, ajuda da forma que pode, contudo não pude deixar de notar que, nessas horas, ainda existam os oportunistas.
Li na Folha de São Paulo de hoje que alguns artigos, como velas, são itens escassos nos mercados locais e que, pasmem (!), os comerciantes estão cobrando R$ 15,00 o pacote. Não dá nem pra comentar, não é? Nada como uma desgraça para inflacionar o mercado e aumentar os lucros.
Navegando em algumas redes sociais percebi várias correntes do bem - mensagens de divulgação de como/onde ajudar -, mas proporcionalmente encontrei, também, vários agradecimentos de artistas/celebridades às Empresas XXX Ltda. pela doação de alguns itens. Até aí, nada demais, o problema está comigo mesmo, pois fico imaginando a cena: a “João Janson” resolve ajudar e quer doar 5000 pacotes de fraldas descartáveis. Ela, através de seu diretor de marketing megassolidário, liga para o “Tucano Gucki”, apresentador badalado, que comovido com o ato, divulga a informação no Twitter, Facebook…mas, não era mais fácil a Empresa querer doar e entrar em contato com a secretaria do Município ou Estado? Claro que não. Quem não gostaria de comprar fraldas da Empresa que se “preocupa” com as necessidades do povo brasileiro. Doar anonimamente? E onde fica o marketing?
A imprensa também não fica atrás. Vários aspirantes a datena apareceram na TV. Todos os “ângulos” da notícia estão sendo registrados: o do fato, o da falta, o da dor, o da humilhação…Registrar o fato deve se sinônimo de informar. Qualquer coisa além é invasão e exploração da intimidade. Acho deprimente entrevistas no cemitério com alguém visivelmente transtornado, enterrando parte de sua vida, tão cruel quanto filmar os que buscam por seus parentes no IML. Não me espantaria se algum desses vitimados resolvesse responder aos repórteres de forma grosseira…Respeitar a dor alheia também é uma forma de ajudar.
É triste, mas a cada início de ano, embalados pelo verão com suas chuvas torrenciais, estaremos cada vez mais aguardando a próxima tragédia. A falta de planejamento social agrava o problema, um pouco de vontade política talvez possa minimizar seu efeito. A verba destinada para prevenção não foi devidamente utilizada. Talvez eu seja muito leiga nesse assunto e não consiga entender que conseguir um bilhão para reformar o Maracanã seja mais fácil do angariar verba para obras de drenagem e contenção de encostas.
Espero que os vitimados busquem forças. Que tenham lágrimas pra chorar seus mortos. Que tenham ânimo para reconstruir seus lares. E que não se importem com o que acontece ao redor, afinal, o detalhe só enxerga quem não vive a tragédia.
